No dia 5 de setembro de 2014 boa parte da equipe da Alvanista zarpou para San Francisco, Califórnia, em uma missão do SEBRAE onde, entre outras coisas, participaríamos do conhecido evento TechCrunch Disrupt. Passamos pouco mais de uma semana na Califórnia e praticamente não tivemos tempo para turistar. Portanto, se você estava buscando dicas de lugares interessantes por lá, eu sugiro tentar o Yelp ou outro serviço similar. Agora, se você está na dúvida se vale a pena entrar em uma missão de negócios para o Vale do Silício esta postagem foi escrita de coração, de mim para você.

Missão

Tudo começou com uma chamada, organizada pelo SEBRAE e a APEX, de startups que estariam interessadas em participar de uma missão brasileira para o TechCrunch Disrupt SF em 2014. Ficamos sabendo através do SEBRAE-CE, que tem sido um grande parceiro nosso em muitas das nossas iniciativas. Tínhamos que enviar uma apresentação curta, e gravar um vídeo de 5 minutos falando sobre a Alvanista – tudo in english. Nessas horas eu agradeço minhas trocentas horas de Shining Force, Chrono TriggerBreath of Fire II e outros jogos que formaram a minha base em inglês quando criança. E ainda existe quem diga que jogos são só perca de tempo.

30 startups foram selecionadas nacionalmente, e tivemos a grande honra de sermos escolhidos. Iríamos representar o Ceará junto com nossos amigos da Logovia e do Vitrola.

Mentorias

Antes de chegarmos em San Francisco, passaríamos por um treinamento – organizado pela Brazil Innovators. Cada uma das 30 selecionadas teria 1 sessão de coaching sobre Business com a Bedy Yang ou o André Monteiro, sócios da própria Brazil Innovators, e também 2 sessões de storytelling e treinamento no inglês. A ideia é deixar os empreendedores preparados para se destacarem no evento.

Fiz o treinamento com o André, e só posso falar bem. Ele foi super rápido em entender o nosso produto, como funciona o nosso modelo de negócios e fez observações precisas sobre como devemos apresentá-lo no mercado americano. Ficamos sabendo após essa primeira mentoria que deveríamos preparar um pitch de 5 minutos, e este mesmo pitch iria ser lapidado nas próximas sessões de mentoria e durante um treinamento presencial em San Francisco. O curioso é que logo no começo da sessão com o André ele me pediu para fazer o pitch da Alvanista – só que não tínhamos um pitch pronto, a apresentação que mandamos para a seleção do programa foi feita exclusivamente para leitura. Fiz um pitch improvisado e, naturalmente, errei todos os aspectos possíveis de um pitch: o tempo, a história, a apresentação e a conexão dos slides. Saí da sessão com o André decidido a preparar o nosso pitch para não fazer feio como fizemos. Comecei a trabalhar nele minutos após o fim da sessão.

Faltavam cerca de 15 dias para viajarmos.

Na semana seguinte tive a primeira sessão de storytelling, com a Dominika Picco (que vou chamar de Nika), da FluentPro. Deste momento em diante, a apresentação (e a mentoria) do pitch seria feita toda em inglês. Já havia melhorado significativamente os slides, e desta vez apresentei para a Nika no tempo certo – e meus acertos param por aí. A execução foi sofrível, e a história do pitch também estava digna de redação de 5a série de colégio. A Nika foi super paciente, e começou a revisar slide por slide, indicando onde eu deveria dar mais ênfase, sugestões de alternativas de roteiro para aquela parte, e me dando uma verdadeira aula sobre storytelling. Minutos após o fim da mentoria eu mergulhei na apresentação do pitch e comecei a colocar em prática as dicas dela. A última sessão de storytelling seria daqui a uma semana, e eu queria fazer bonito dessa vez.

Na última sessão eu consegui, finalmente, fazer uma apresentação do pitch que não fosse sofrível. Ficou só ruim. A Nika novamente viu comigo todos os slides, um por um, e foi passando as últimas sugestões de melhorias. Passei a última semana pesquisando sobre pitchstorytelling, analisando pitches de sucesso e melhorando o nosso. Preciso deixar registrado o quanto a mentoria da Nika foi fantástica: saí muitas vezes melhor em cada uma delas.

Concluído o treinamento online, a hora agora era de preparar a mala e partir para San Francisco. Lá faríamos, um dia antes do Tech Crunch, a última sessão de treinamento. Desta vez todas as startups estariam juntas e teríamos um dia intensivo só para deixar a apresentação de todo mundo tinindo.

American Idol

Domingo pela manhã, nós saímos da nossa casa super simpática alugada via AirBnB para o prédio da SalesForce, onde seria o treinamento presencial. Chegando lá encontramos, pela primeira vez, nossos colegas das outras 29 startups selecionadas. Fiquei feliz de ver também todos os representantes do SEBRAE de cada estado – e mais ainda que alguns estados trouxeram mais empresas além daquelas que foram selecionadas. Havia muita gente por lá, e muita gente interessante. Fomos todos para um auditório, e o pessoal da APEX pediu para que aqueles que irão apresentar os pitches ficassem nas mesas da frente, enquanto os outros ocupavam as mesas mais pro fim do auditório. Após ter o meu apoio moral removido, fui pra o meu lugar na frente, abri o notebook e comecei a praticar mentalmente o pitch.

Pela manhã, cada startup iria fazer um elevator pitch de cerca de 30 segundos no palco do auditório, uma por vez, e logo após uma banca de mentores iria dar um feedback de alguns minutos. Tanto você como os mentores tinham microfones, e a ideia é que todo mundo ouvisse tanto os elevator pitches quanto os feedbacks dos mentores uns dos outros, para aprendermos mais. O ruim dessa idéia é a pressão de apresentar para dezenas de outros empreendedores, em um palco, e receber um feedback disto de forma pública. Pense American Idol. Um pouco tenso, mas muitíssimo interessante.

Após a apresentação medíocre do meu elevator pitch, recebi feedbacks excelentes da Bedy Yang e do Jaime Ignacio Rovirosa. A Bedy é investidora da 500 Startups, e o Jaime é um empreendedor que foi investido pela 500. Ou seja, ambos são extremamente qualificados para serem mentores, e cada minuto de feedback deles era precioso para todos nós.

Pela tarde iríamos para a parte final do treinamento: a fatídica apresentação dos pitches. A APEX anunciou, também, que os mentores iriam escolher 5 dentre as 30 empresas para se apresentarem em um evento fechado para investidores, que iria acontecer alguns dias após o TechCrunch Disrupt. Se a situação já era tensa antes, com a notícia de um “prêmio” o nervosismo aflorou até dentre os mais experientes.

Fui o segundo a apresentar.

Não sei mais quantas palestras já dei – inclusive em eventos grandes como a Campus Party – mas posso afirmar que, em termos de nervosismo, nada se comparou à essa. Respirei fundo, subi ao palco e tentei focar em fazer o que havia praticado tantas vezes nos últimos dias – deixando inclusive o nosso condômino do AirBnB sabendo nosso pitch decorado. Concluí no tempo, e era hora dos feedbacks. Sei que errei pouco a apresentação, mas não consegui sentir o quanto ela havia sido apreciada, ou não, pelos mentores e a “platéia”, estava muito focado na próxima frase e não consegui prestar atenção nisso. Os feedbacks foram excelentes e muito prolongados, e senti que os mentores ficaram bem satisfeitos com a apresentação. Visto o tanto que eles investiram na gente através das mentorias, isso me deixou bem feliz. Voltando para a minha cadeira, fui cumprimentado por um sem-número de outros empreendedores, e aí caiu a ficha de que, dessa vez, a apresentação havia ido muito bem. Que alívio! Demorou alguns bons minutos até os meus batimentos cardíacos voltarem ao normal.

Foi interessantíssimo assistir a todos os 30 pitches – a grande maioria deles super bem preparados e com apresentações excelentes. Aprendi muito com os feedbacks de cada uma delas, e após o fim das apresentações eu já me considerava imensamente mais preparado do que no dia anterior. Estava, finalmente, pronto.

A APEX anunciou os 5 “vencedores”, e tivemos (novamente) a honra de sermos escolhidos, junto com 3 startups catarinenses e uma de Alagoas. O dia terminou com festa – porém logo na manhã seguinte já iríamos partir para o primeiro dia de Tech Crunch Disrupt.

Tech Crunch Disrupt

A série Silicon Valley fez uma sátira ao evento perigosamente similar ao Startup Battle – que é uma parte (importante) do evento.

Não chegamos à apresentar no Startup Battle – nossa inscrição era pro Startup Alley, que é um pavilhão com pequenos stands para startups de todo mundo apresentarem seus negócios dentro do Disrupt. Ficamos no pavilhão Brasileiro, junto com um grande número de startups. A experiência foi interessante – conversamos com pessoas de diversos países, e foi bom também absorver um pouco do ar “revolucionário-tecnológico” que circula em San Francisco. Além disso, tivemos a chance de conhecer e conversar com a equipe de várias outras startups.

O evento é muito bem organizado, e fica em uma localização ótima dentro da cidade.

O Vale do Silício

Após o primeiro dia de Tech Crunch começava a segunda parte da nossa missão. Havíamos marcado uma série de reuniões com empreendedores e investidores locados em SF, graças principalmente à rede de contatos do Rodolfo Sikora, que é sócio da Alvanista e participou do Y Combinator em 2007. Essas reuniões foram, sem dúvidas, a parte mais importante da nossa missão em San Francisco.

Conseguimos conversar sobre a Alvanista com fabricantes de consoles, como a Sony, desenvolvedoras, como a EA, investidores, outros empreendedores e jornalistas. O feedback destas reuniões foi de grande valia para nós, e foi nessas idas e vindas de reuniões que pudemos, efetivamente, vivenciar o Vale do Silício. Cada empresa tinha sua sede em uma pequena cidade não tão longe de San Francisco, e passamos um bom tempo viajando de uma cidade para outra, indo sempre de reunião para reunião. Toda a região do Vale respira tecnologia, e cada pessoa que nos reuníamos nos surpreendia com seu conhecimento sobre o mercado, sobre startups, tecnologia e tudo relacionado. Não é de surpreender que tanta gente vá para lá – o ecossistema é simplesmente fantástico.

Voltando ao Brasil

A experiência em San Francisco certamente foi transformadora para toda a nossa equipe. Olhamos para nós mesmos de um mês antes da missão e nos consideramos muito mais preparados para expandir internacionalmente a Alvanista. Preciso registrar também que tudo isso se deve ao contínuo apoio do SEBRAE-CE, especialmente no nome do Glauber Uchôa, que nos apoiou durante todo o processo.

Estamos com planos de passar todo o nosso aprendizado para os empreendedores de Fortaleza, e estamos formatando umas ideias para que isso aconteça – e logo. Não faz sentido manter todo esse aprendizado só para nós: seria muito bom se tivéssemos um ecossistema mais rico – como o de San Francisco – em Fortaleza, e eu posso falar vale a pena lutar por isso.